Um portista nunca vira a cara a um desafio. Muito menos de um comboio azul. Recuemos, então, até meados da década de 80.
Na escola, o futebol e as miúdas ocupavam a mente de qualquer adolescente de 15 ou 16 anos. Eu não fugia à regra. No que diz respeito às catraias, a timidez não ajudava muito a alcançar os meus objectivos, mas, mesmo assim, posso orgulhar-me de alguns troféus. Poucos, é certo, mas de qualidade. Quanto ao futebol, as coisas corriam melhor, não só pelo facto de eu ter jeito para a coisa, mas também porque tentava imitar aquele que era o meu ídolo. E como eu gostava de imitar Rabah Madjer. O argelino devia ser, na altura, o paradigma do futebolista para 90% dos putos portistas. Era o artista, o génio, o homem das arábias. A bola no seu pé era um milagre. Nunca sabíamos o que ia sair dali. Nas Antas, era como se nós, espectadores, também estivéssemos em campo e ele não só fintasse o desgraçado que lhe aparecia pela frente, mas todas as 30 ou 40 mil almas que o olhavam com espanto. Era o tempo em que se ia às Antas ver o Madjer jogar. Com o grau de idolatria tão elevado, só podia tentar imitá-lo na escola (eu e mais uns 300 putos).
Houve um dia em que eu "fui" efectivamente ele. Era mais um jogo, numa tarde ensolarada, possivelmente tarde de furo escolar, com uma dezena de miúdos ávidos de bola, neles eu incluído. A história do jogo e o respectivo resultado perderam-se na memória vaga do tempo, mas há uma jogada minha que eu nunca mais esqueci. Foi mais ou menos assim: correndo pelo lado direito do ataque, foi-me passada a bola. Tinha um adversário pela frente, mas logo lhe fiz aquela finta típica do Madjer, em que ele passava a perna por cima da bola com uma rapidez estonteante, fazendo o opositor "cair" para esse lado, desequilibrando-o, mudando logo de direcção, sempre em corrida. Depois, surgiu um segundo adversário, do qual me desenvencilhei com o movimento banalíssimo da bola por um lado para a ir buscar pelo outro. Antes de chegar à linha de fundo, e em grande velocidade, porque aquelas fintas tinham exigido uma correria desenfreada, nem pensei em cruzar. Uma jogada tão bonita tinha de ser bela até ao fim e só me restava uma solução: rematar à baliza e arriscar a perfeição. Ainda hoje vejo aquele remate, um remate perfeito para uma jogada perfeita. A bola a entrar ao ângulo superior mais afastado do lado onde eu estava e o redes estático, olhando a trajectória. Provavelmente alguém gritou "Ganda guoloooo!". Não me lembro. A minha mente só "ouvia" o bruááá ensurdecedor e delirante de um Estádio das Antas cheio. Acho que não fiz mais nada de jeito nesse jogo. A minha missão estava cumprida. Rabah Madjer tinha estado naquela tarde no campo de futebol do Carolina Michaëlis, da parte de cima, com vista para a Igreja da Ramada Alta.
Publicado por guardabel em fevereiro 13, 2007 03:36 PMFenomenal!
Fantástica descrição que me atirou para a minha meninice, no campo do colégio de Santa Joana, onde eu era um incompreendido da bola...
Abraço e obrigado pela participação.
Posso, já agora, descrever também um golo de antologia que marquei há cerca de um ano? Então aí vai. Campo de Futsal Bola em Jogo, São Mamede de Infesta. Lançamento de linha lateral, com as mãos atiro a bola, esse brinquedo lindo, contra as pernas do defesa. Era a minha intenção, mas a sorte befejou-me: a bola bate-lhe e vai cair mais à frente. O defesa fica para trás e eu, rato de esgoto, apanho-a. Mais outro gigante, o redes, que é preciso desfeitear. O remate saiu bem colocado e o golo, esse êxtase inexplicável, aconteceu..foi lindo, quase nos 40 anos a fazer destas coisas! Já me tinham dito que havia "artistas" da bola, tipo o Pélé, que faziam isto em lances de bola corrida, e de facto há quem o faça por esse campos fora, mas daquela forma nunca vi....
Afixado por: Força Belém em fevereiro 13, 2007 06:51 PMEste Madjer,era fenomenal!De facto o melhor estrangeiro que alguma vez jogou em portugal,com todo o respeito que me merece Teófilo Cubillas!Foi graças a jogadores deste calibre que começou a desenvolver-se o embrião que mais tarde deu origem a este fenómeno a que se deu o nome de pito dourado!Haja estomago para aturar esta merda sem vomitar!PS:Quero resalvar o facto de Cubillas não ter contribuido muito para este cavalo de troia a que chamam pito dourado,porque jogou a maior parte do tempo num tempo em que o futebol era uma maravilha e os pitos eram tudo menos dourados!Eu lembro-me porque nesse tempo eu já via pitos,poucos é certo mas alguns!
Afixado por: condor em fevereiro 13, 2007 10:02 PMMeu caro guardabel só quero dizer que estou comovido com esse tributp feito ao grande Madjer, Que saudades desse tempo...
Afixado por: Reinaldo Teles em fevereiro 19, 2007 10:19 PMfoi um genio kkk passou pelo porto ...
poderemos ver mts
mas pra mim madjer foi e sera sempre o melhor de tds
obrigado por passeares a tua classe pelos relvados portugueses
Afixado por: EMANUEL em março 21, 2007 10:10 PM