novembro 28, 2005

História de embalar

Era uma vez um país onde havia regras que as pessoas tinham de respeitar. Só que nem todas as pessoas o faziam.

Um dia, uma dessas pessoas que tinha dificuldade em respeitar as regras zangou-se com outra pessoa e discutiram numa ruazinha estreita, perpendicular a uma avenida. Nessa avenida morava uma pessoa, daquelas que pertencem ao grupo que respeita sempre as regras. Essa pessoa, naquele momento da discussão, estava à janela a ver o movimento da rua e a sentir a brisa agradável na face. A discussão das outras duas pessoas prendeu a sua atenção, mas, devido à posição do prédio em que se encontrava, o ângulo de visão não era o mais favorável e só conseguia ver uma das pessoas a discutir, neste caso, a pessoa que tinha dificuldade em respeitar as regras. Ficou curioso para ver no que aquilo ia dar, até porque as vozes iam progressivamente aumentando de intensidade.

A certa altura, olhou para o lado oposto em que se encontravam as duas pessoas que discutiam e, para seu alívio, viu uma daquelas pessoas que prendem todos aqueles que têm dificuldades em respeitar as regras, também conhecidas como agentes da autoridade, virar a esquina do quarteirão mais afastado, caminhando na direcção do local do conflito. A situação atingiu o ponto culminante quando a pessoa que estava no seu campo de visão (tanto da pessoa da janela como do agente da autoridade) tirou do bolso interior do casaco uma pistola, apontou-a em frente e disparou por três vezes, pondo-se em fuga imediatamente, não sem antes atirar a pistola para um contentor do lixo. Quase tão surpreendente quanto este acto desrespeitador das regras foi a atitude do agente da autoridade: mal ouviu os disparos, deu meia volta, e caminhou apressadamente na direcção oposta.

Revoltada com a cena, a pessoa que estava à janela desceu rapidamente para acudir a uma quase certa vítima que se encontraria estendida no chão daquela ruazinha estreita. Quando lá chegou, não viu ninguém, reparou apenas que do lado direito da rua, junto a uma porta vermelha, o chão estava salpicado por algumas gotas de um líquido também ele vermelho. Pensou então: "A vítima foi atingida pelos disparos, mas terá conseguido fugir, possivelmente para dentro deste prédio". Que fazer então? Tocar à campaínha e verificar se alguém precisa de ajuda? Chamar a ambulância pois há fortes evidências que alguém está ferido? Ir ao sítio onde costumam estar as pessoas que têm como função prender aquelas pessoas que têm dificuldade em respeitar as regras, também conhecidas como agentes da autoridade? Apesar da estranheza e de certa forma desilusão que a reacção do agente que mal ouviu os disparos resolveu virar costas lhe provocou, optou por esta terceira hipótese, até porque, pensou, "Nem todas as pessoas naquele sítio onde prendem as pessoas que têm dificuldade em respeitar as regras serão iguais". E lá foi, a pé e rapidamente, até porque esse sítio ficava a apenas dois quarteirões do local daquilo a que a pessoa que estava à janela já se tinha decidido a qualificar de "crime". Quando lá chegou, falou com uma pessoa que estava atrás de um balcão, ele também um agente da autoridade.

- Boa noite, vinha contar uma cena que vi.
- Conte lá.
- Vi duas pessoas a discutir e uma delas a disparar sobre a outra.
- Ai sim? E alguém ficou ferido?
- Acho que sim, porque vi um líquido vermelho no chão.
- Acha que sim? Então não tem a certeza? Então você não viu?
- Bem, vi a pessoa que disparou, mas não vi a pessoa que sofreu os disparos. Mas ouvi-as a discutirem antes dos disparos. Sabe, eu estava à janela e não tinha uma visão completa da situação.
- Bem... vamos lá ver... Você primeiro diz que viu duas pessoas a discutir, depois já diz que as ouviu, depois viu uma disparar, depois viu um líquido vermelho no chão, mas não viu nenhuma vítima... Não acha que isto assim à primeira vista está muito vago?
- Ó senhor agente da autoridade, eu só acho que a pessoa que disparou não o devia ter feito, pois pôs em causa uma das mais sagradas regras da existência humana que é o respeito pela integridade física do outro.
- Se houver um “outro”…
- Com certeza que há.
- Mas sabe que é difícil chegarmos a uma conclusão só com esses dados que o senhor me está a apresentar... Sabe se esse acto não terá sido em legítima defesa? Se essa pessoa não terá sido ameaçada primeiro? Se ela não fará parte deste grupo de pessoas no qual eu muito orgulhosamente me incluo, o dos agentes da autoridade?
- Bem, tudo isso são questões pertinentes, mas que esbarram no comportamento que essa pessoa demonstrou depois de disparar.
- E que comportamento foi esse?
- Pôs-se em fuga e atirou a pistola para um contentor.
- Bem, assim à primeira vista, parece haver algo suspeito... E testemunhas? Há mais testemunhas?
- Havia gente a passar na rua... pouca gente, mas sabe como é... uns por medo, outros por cobardia, ninguém pareceu interessar-se pelo caso... Eu, que estava à janela, fui a única pessoa a ter vontade e, admito com algum orgulho, a coragem de averiguar o que se passou.
- Desculpe lá, averiguar, não. O senhor está a ser incorrecto e, de certa forma, a faltar mesmo ao respeito a esta instituição. O senhor não tem essa função. Essa função pertence-nos a nós. O senhor não averigua nada.
- Tem razão, senhor agente da autoridade. Peço desculpa. Mas então, explique-me por que razão um dos senhores que, tal como o senhor com quem estou agora a falar, pertence ao grupo dos agentes da autoridade, no momento do sucedido e apercebendo-se perfeitamente dos disparos, virou costas e decidiu não fazer precisamente aquilo de que o senhor agora me censura, ou seja, AVERIGUAR?
- O senhor tem a certeza do que está a dizer?
- Tenho a certeza do que os meus olhos viram.
- Mas ainda há pouco dizia ter visto duas pessoas a discutirem e logo a seguir desdisse o que disse e afinal tinha ouvido duas pessoas e visto só uma. E com o barulho da avenida nunca se sabe o que se ouve.
- Mas disto tenho eu a certeza: o senhor que tem por função prender as pessoas que têm dificuldade em respeitar as regras, um agente da autoridade, caminhava na direcção do sucedido e voltou para trás quando ouviu os disparos.
- Bem, face à gravidade do acontecimento, penso que essa situação da pessoa que virou costas é um pormenor sem importância. O senhor veio aqui com um objectivo, cumpriu-o, agora cabe-nos a nós tomar as rédeas do processo, ainda que, e desde já o aviso, corramos o risco de ele não dar em nada.
- Em nada?
- Sim, em nada, porque, tendo em conta aquilo que me disse, será muito complicado encontrar uma vítima. Eu diria mesmo que não há vítima. E não havendo vítima, torna-se difícil acusar alguém do que quer que seja.
- Não haverá vítima, por enquanto, mas há agressor, há alguém que, com justificação ou sem ela, isso caberá aos senhores averiguar, agrediu. E quem tem esse tipo de comportamento deve ser, no mínimo, chamado à atenção de maneira a que não o repita, a bem da segurança de todos nós…
- Vamos ver o que se pode fazer…
- Há inclusivamente uma pistola que seguramente tem impressões digitais de quem a utilizou. E depois há o líquido vermelho que eu encontrei no chão junto a uma porta vermelha que posso perfeitamente identificar, líquido esse que as pessoas dos laboratórios poderão facilmente associar à vítima a partir das mais avançadas técnicas de análise dos líquidos vermelhos.
- Vítima… se ela existir…
- Sim, se existir…
- Bem, agradeço-lhe a iniciativa que teve em procurar-nos. Vamos tomar todas as providências no sentido de resolver a situação.
- Eu é que agradeço tudo o que possam fazer nesse sentido. Afinal, a nossa segurança está nas vossas mãos. Muito obrigado. Boa tarde.
- Boa tarde.

Publicado por guardabel em novembro 28, 2005 11:35 AM
Comentários

Ah e tal, a história é gira. Mas tem alguma coisa a ver com o FCP? Ou é uma história real?

Afixado por: FCPLisboa em novembro 28, 2005 11:56 AM

epá desculpem lá,mas k merda é esta?? lol força grande FCP [] lol...

Afixado por: gustavo em novembro 28, 2005 12:24 PM

Hehe Boa, Guardabel... :)

Afixado por: PequenaJoana em novembro 28, 2005 12:36 PM

Boa :))

Afixado por: Xerxes em novembro 28, 2005 03:50 PM

Grande história em tons de vermelho...lol

Afixado por: Mágico Porto em novembro 28, 2005 03:58 PM

eh eh eh tu tás lá :)

Afixado por: netlandscape em novembro 28, 2005 11:11 PM

É mais um retrato do nosso querido Portugal e da polícai que temos. Admirado ficava eu se os moinas tivessem feito o que deviam fazer. Nós é que estamos mal habituados pelos filmes e séries americanos.

Afixado por: JC em novembro 28, 2005 11:25 PM