julho 23, 2005

FUTRE: O "verão quente" de 1985

Nota introdutória - este artigo só deve ser lido por três tipos de pessoas:
1. As que têm mais de 30 anos e se recordam dos factos relatados.
2. Os interessados pelas coisas da História.
3. Os benfiquistas que queiram aprender como se resolve um caso difícil "tipo-Miguel".

Há precisamente 20 anos. Estávamos no verão de 1985. O FC Porto tinha acabado de se sagrar Campeão Nacional pela primeira vez na década de 80. Com Artur Jorge ao leme, a equipa do FC Porto contava com nomes como João Pinto, Eurico, Frasco, André, Gomes, Jaime Magalhães e Futre, entre outros. Nesse campeonato, perdera apenas 4 pontos (1 derrota e 2 empates) e estabelecera um novo recorde de 14 vitórias consecutivas. Era uma equipa fabulosa, que já estava na génese daquela que viria a ser Campeã Europeia em 1987.

Futre tinha sido a revelação do campeonato, vindo do Sporting com 18 anos, e era sobre ele que recaíam as atenções. Nesse verão de 1985, surgiu a notícia de que o Atlético de Madrid lhe tinha oferecido “o contrato da sua vida”. O trissemanário A Bola intitulava, na edição de 20 de Julho de 1985: FUTRE: O VERÃO QUENTE DO FUTEBOL PORTUGUÊS.

Alguns dias antes, Futre dizia que esperava que o FC Porto, com quem tinha contrato até 1989, não lhe cortasse as pernas e impedisse de fazer o contrato da sua vida. Era grande a sua determinação em ir para Espanha, até porque, dizia, “já sou um vencedor em Portugal, agora, quero internacionalizar-me”. É claro que estas declarações esbarraram na irredutibilidade do FC Porto em vender o jogador, acabadinho de chegar e com ainda tanto para dar ao clube.

A questão ainda era mais complicada, pois o Sporting tinha uma palavra a dizer neste processo. E porquê? Pela simples razão de que era o Sporting que detinha a Carta Internacional do jogador, sem a qual, ele não poderia sair para o estrangeiro. Veja-se o caricato da situação: o jogador tinha contrato com um clube, mas era outro quem podia decidir se ele ia ou não para o estrangeiro.

A Federação Portuguesa de Futebol entrou ao barulho, dizendo que seria necessário um acordo a 4:
- O FC Porto, com quem Futre tinha contrato até 1989;
- O Sporting, que detinha a carta internacional do jogador, pois havia uma lei que estipulava que nenhum jogador poderia transferir-se para o estrangeiro sem ter, nomínimo, 3 anos de estada num clube. No FC Porto apenas tinha estado 1 ano. No Sporting tinha feito toda a sua formação.
- O Atlético de Madrid, potencial comprador;
- Futre, o cerne da questão.

Recorde-se que naquele tempo, FC Porto e Sporting, nas figuras dos respectivos presidentes Pinto da Costa e João Rocha, eram “inimigos de morte”. Com o Benfica, de Fernando Martins, o FC Porto dava-se bem. Outros tempos... Para complicar a questão, Futre contratou para seu advogado, precisamente o advogado do Sporting, Dr. João Gaspar, que, na mesma edição de A Bola (20/07/85), dava uma entrevista curiosa, conduzida por uma tal... Leonor Pinhão:

“Não estou hipotecado a nenhum dirigente do Sporting... e entrei neste caso de cara lavada e a pedido da família de Futre, que pediu para estudar uma hipótese legal da saída do Paulo para o estrangeiro. Foi o que fiz... apontei-lhe a solução e os riscos que ia correr”.

E que solução era essa?

João Gaspar - “Futre é um trabalhador como qualquer outro deste país. Portanto não é pertença de nenhum clube ou de nenhum presidente. E sendo um trabalhador como outro qualquer, Futre tem o direito de rescindir em qualquer altura o seu contrato com a entidade patronal... com ou sem justa causa.”
Leonor Pinhão – “Com ou sem justa causa?”
JG - “Exactamente. E estamos dentro da lei porque segundo o acórdão proferido pela comissão de 1ª estância da FPF, em 26 de Setembro de 1977, está estabelecido que: «É um princípio fundamental dentro do direito de trabalho a possibilidade de o trabalhador rescindir com ou sem justa causa o seu contrato»”
LP – “Mas nos documentos Futre pede a rescisão por justa causa...”
JG – “Com base nas alíneas g) e e) da Base LIV da PRT. A alínia g) aplica-se por falta de condições psicológicas de trabalho e a alínea e) aplica-se quando a entidade patronal leva o trabalhador à rescisão do contrato de trabalho”.

O jogador chegou mesmo a enviar a carta de rescisão unilateral ao FC Porto, invocando as referidas alíneas. Enviou também uma carta a solicitar a rescisão à FPF. A confusão de declarações era geral. Pinto da Costa dizia que "Futre é do FC Porto e quer o FC Porto".O Pai-Futre, em entrevista nessa mesma edição de A Bola dizia o seguinte: “O meu filho estará nas Antas no primeiro dia de Agosto! ... a não ser que o Atlético de Madrid apareça aí com uma mala cheia de dinheiro para pagar ao FC Porto”. Essa mala cheia de dinheiro deveria conter nada mais nada menos do que 250 mil contos (um balúrdio na altura), que era a cláusula de rescisão.

A entrevista, conduzida por Ruah Mendes, é curiosa pois demonstra até que ponto a imprensa queria ver Futre fora do FC Porto. Reparem bem nas perguntas que são feitas ao pai de Futre.

Pai-Futre – “Olhe, neste momento o A. Madrid já devia ter negociado com o FC Porto e não o fez...”
Ruah Mendes – “Pois é. Então e acarta internacional do jogador em poder do Sporting?”
PF – “É verdade. Enfim, sei lá. Se utilizássemos todas as vias judiciais, ele acabaria por sair para Espanha. Mas não queremos prolonagr a sua situação... esta agonia.”
RM – Ouça... E, nesse caso, isto é, se, digamos, tudo fica em águas-de-bacalhau e o seu filho continua no FC Porto, não receia “represálias”, “mau viver”, mau ambiente, no dia 1, no Porto?
PF – Não, não! Isso passa! Tudo esquece. Afinal de contas o miúdo tinha a oportunidade de fazer o contrato da vida dele... tentou defender o seu futuro, salvaguardar os seus interesses, ninguém pode levar-lhe a mal.
RM – Mas, sr. José Paulo, sinceramente, como é que o acordo se malogrou?
PF – 250 mil contos. Exactamente a quantia cláusula de indemnização estipulada no contrato que assinámos com o FC Porto, prevendo uma eventual saída do rapaz para um clube estrangeiro.

Entre os dias 20 e 22 de Julho a situação resolveu-se a favor do... FC Porto e de Futre, pois, como se viria e verificar nos anos seguintes, ele não poderia ter tomado melhor opção do que a que tomou: ficar no FC Porto. Tudo graças à acção do Vice-Presidente Alexandre Magalhães, a quem é dada a manchete de A Bola de 22 de Julho: (A respeito de Futre) SÓ QUERIAM DESTRUÍ-LO E PREJUDICAR O FC PORTO. Alexandre Magalhães era descrito no jornal como o homem que fez “uma odisseia que levou Futre a assinar as cartas que anularam a rescisão do contrato que solicitara à FPF”.

Aqui ficam algumas declarações do Vice portista:

“Alguns clubes espanhóis ainda julgam que estamos no tempo dos Filipes”

“Antes de o FC Porto o ter contratado, Futre esteve para ser cedido à Académica e, posterior-mente, quando o Sporting pensou num clube-satélite, ao... Casa Pia”

“Futre disse-me que a nossa amizade saiu reforçada e que no futuro nada fará sem me ouvir.”

“Nunca acreditei que o Atl. Madrid tivesse actualmente possiblidades financeiras para fazer a transferência com as garantias que nós lhe exigiríamos.”

Futre e Gomes: grande dupla

Encerrava-se assim um dos episódios mais polémicos das pré-épocas dos anos 80. Graças ao diálogo sério e honesto promovido pelo FC Porto, o clube campeão nacional mantinha uma das suas jóias da coroa. Sem declarações polémicas, acusações ao jogador, ou subterfúgios de qualquer espécie. Futre ficaria mais dois anos, seria bi-campeão nacional, considerado o Jogador do Ano em 1986 e 1987 e sagrar-se-ia Campeão Europeu, saindo em 1987 para o Atlético de Madrid, onde nunca chegaria a saborear o título. Maldição?

Na edição de A Bola de 25 de Julho, Alfredo Farinha dissertava sobre o assunto-Futre num texto cujo título era “SE FUTRE TIVESSE PARTIDO, QUEM PODERIA SUBSTITUÍ-LO?”

Publicado por guardabel em julho 23, 2005 01:54 AM
Comentários

Excelente texto!
Tem tudo a ver com a seriedade das pessoas e dirigentes dos clubes, é fácil perceber as diferenças.
O mesmo jornal A Bola que tanto empurrava Futre para longe do FCP, está a apoiar 100% o benfas na acção do Miguel.

http://azulebranco.blogspot.com/

Afixado por: Dragão Azul em julho 23, 2005 02:12 PM

Já começo a compreender o "ódio de estimação" que alguns jornalistas "isentos", cujos nomes não digo (Farinha & Pinhão) têm relativamente ao MAGICO FCP... E realmente têm motivos para nos odiar, nestes últimos 20 anos tiramos-lhes qualquer tipo de protagonismo. Espero que daqui por mais 20, o ódio seja ainda maior. Vida longa aos nossos inimigos para que assistam de pé às nossas vitórias!

Afixado por: Deko em julho 23, 2005 02:29 PM

Pois, resolveu-se porque no FC PORTO CAMPEÃO MUNDIAL, não há gangsters...

Mas no Benfica,... só há gangsters e dívidas! :lol:

Afixado por: SLB PAGUEM AO FEHER! em julho 23, 2005 03:51 PM

Muito bom post :)

Afixado por: PequenaJoana em julho 24, 2005 12:09 AM

alfredo farinha e aurélio márcio dois "isentos" ao serviço do clube dp Prof. Salazar, e diziam estes filhos da puta que eram comentadores desportivos ... Se fossem gozar com a puta que os pariu!

Afixado por: SD em julho 25, 2005 09:27 AM