julho 03, 2004

A equipa nacional, o FCP e os outros

O Euro 2004 ainda não acabou e o chorrilho de asneiras que a este propósito é publicado também não. Uns porque têm memória curta, outros porque se entusiasmaram com os súbitos afectos de Scolari por Portugal (se eu ganhasse o que ele ganha também amaria os que pagassem...) e outros porque têm que dar voz à sua cor clubística, apesar da suposta isenção jornalística. Mas vamos por partes.


1. O Scolari, o tempo perdido e a habilidade de ser brasileiro

O homem está a provar saber gerir um grupo com cabecilhas e clãs, para além de ter conseguido encantar Portugal. As vitórias ajudaram e a emoção, genuína ou exacerbada (ou ambas!), do modo de ser brasileiro em terras lusas fez o resto.

Porém, é bom lembrar que os indiscutíveis de hoje (R. Carvalho, Maniche, Deco, C. Ronaldo e N. Valente) nunca jogaram juntos nos jogos de preparação. Aliás, alguns deles, pouco ou nada jogaram na selecção, com os resultados que se conhece.

É escusado dizer que os do FCP são jogadores maduros, experientes e bem sucedidos, sendo que tal coisa deveria significar uma mais valia para a equipa de todos nós. O C. Ronaldo, sendo ainda imaturo, jogou uma época num dos mais bem sucedidos clubes do mundo.

Ter efectuado as alterações quando estava à beira do precipício foi, simultaneamente, um acto de inteligência (assumindo os erros) e um acto de incoerência - afinal, uma equipa com esquema e jogadores definidos para cada papel muito antes da fase final, e em que a discussão era em torno da escolha do P. Ferreira ou do Miguel, do Costinha ou do Petit e do Boa Morte ou do Simão, não poderia ser encostada só porque um jogo "correu mal". Não! O que aconteceu no primeiro jogo já tinha acontecido em muitos jogos, mas faltou coragem para afrontar o clã e admitir que aqueles tipos do "Puerto" tinham um leque jogadores que eram indispensáveis. Sim, leram bem - INDISPENSÁVEIS!


2. A equipa que temos e os que não querem ver (SLBs, saudosistas e afins)

A equipa que vai entrar em campo no domingo é a mesma que entrou de início para o jogo com a Holanda. Quando as coisas funcionam como um todo, não faz sentido mudar. Mas existem dois jogadores seriamente "prejudicados" por esta lógica de senso comum, ainda que em doses e modos diferentes:

- o P. Ferreira, que sendo o melhor defesa direito português, teve o azar de fazer um dos piores jogos da sua carreira contra a Grécia; além disso, ainda que com as limitações defensivas que se conhecem (deficiências de marcação e falta de jogo de cabeça), o Miguel agarrou a oportunidade e demonstrou, aqui e ali, que ataca melhor e não nos deixou ficar mal - numa competição deste género e com os condicionalismos enunciados, merece continuar no 11;

- o N. Gomes, que tendo sido o herói contra a Espanha (o homem está fadado para marcar em situações difíceis), viu uma parte significativa do Europeu no banco, enquanto o Scolari dava todas as hipóteses possíveis e imaginárias a um jogador de inegável qualidade (sem dúvida, o melhor ponta de lança português da actualidade) que tem estado muito mal em todos os jogos e ficado em campo mais tempo do que seria necessário. Pelas mesmas razões que "encostou" o P. Ferreira, Scolari deveria ter colocado o N. Gomes a titular contra a Holanda. Na final, tendo preferido sempre o Pauleta, mais vale deixá-lo iniciar a partida outra vez: mas que não perca tempo na substituição caso ele volte a fazer uma primeira parte cheia de falhanços, porque os gregos não nos vão dar tanto espaço como os holandeses.

E quanto ao F. Couto e R. Costa, estamos conversados: o 1º mostrou a diferença que existe entre ele e qualquer um dos titulares no modo incompetente como deu à Holanda o único livre directo junto à linha da grande área de todo o jogo; o 2º já provou que pode ser muito útil a sair do banco, quando as energias dos adversários começam a acabar - já marcou dois golos (o do jogo com os ingleses foi fabuloso) mas não defende, só ataca. Aquilo que fez dele um nº 10 dos melhores do mundo continua lá, mas tudo acontece agora a um ritmo mais lento, com uma frescura física que dá para 20 minutos a apertar, não mais. Mas como suplente ainda é um luxo. E parece jogar melhor quando se sente posto em causa...

Por fim, o Figo, esse "ainda" grande jogador. Com a vontade com que jogou o último encontro, ainda dá para disfarçar a perda de velocidade e o menor poder físico, sobretudo quando o desgraçado que lhe aparece pela frente se chama Cocu, Bouma ou Stam. Defendeu, não se agarrou à bola, atacou bem, enfim, como o Maniche foi retirado do campo antes do fim do jogo, acho que foi mesmo o melhor português.

Deu para ver que quis deixar uma marca nesta presença na fase final e sair como um herói. É justo e é muito bom para a selecção; foi pena aquela cena triste no jogo com a Inglaterra e o ar de vedeta mimada. Todavia, tudo isso é irrelevante porque o Figo trintão me fez sonhar com aquele rapaz que partia a loiça toda no Barcelona e levava a equipa às costas. Esse foi o melhor jogador português que tive a oportunidade de ver jogar, que me perdoem os fãs do Eusébio.


3. A final

Tenho uma leve suspeita de que o jogo irá ser uma chatice até que uma das equipas marque um golo, ou até aos 10 minutos finais, se a coisa continuar a zero.

Apesar de entender que seria muito mais provável perder com a República Checa do que com a Grécia, fiquei mesmo triste com a derrota de Neved & friends. Pelo que ela significou de arbitrário - o futebol tem muitos imponderáveis, mas algumas injustiças são mais aceitáveis do que outras - mas também pelo que representa a chegada à final de uma equipa de cínicos cuja única vitória justa foi a que obtiveram contra Portugal. Em todos os outros jogos, mesmo com as equipas adversárias abaixo das suas possibilidades (como no caso da França e da Espanha), os gregos remataram menos, tiveram menos oportunidades e jogaram sempre com 10 jogadores atrás da linha da bola, atrás da linha de meio campo. Mas só perderam uma vez...

A vitória de Portugal, neste contexto, seria, para além de tudo o que se sabe, uma vitória dos adeptos do futebol positivo, do arrojo, do espectáculo, enfim, o triunfo do verdadeiro espírito deste desporto fantástico. Troquei hoje uns emails com um amigo checo e prometi-lhe que os nossos fariam justiça pelos dele. Por favor, não me deixem ficar mal.

Publicado por poncio em julho 3, 2004 12:34 AM
Comentários

A Grécia faz-me lembrar o Boavista de Jaime Pacheco, aquele que foi campeão com 11 jogadores atrás da linha da bola, à espera dos erros dos adversários. Um futebol feio, matreiro e cobarde. A única diferença é que a Grécia não dá tanto "pau".

Afixado por: guardabel em julho 3, 2004 09:31 AM

Viva o Bostinha!!! Nem a bosta consegue chegar...

thhp://marvermelho.blogspot.com

Afixado por: BeNNfica em julho 5, 2004 12:50 PM

ahahahaha.....tou mm trocado com....http

Afixado por: BeNNfica em julho 5, 2004 12:51 PM